Este guia completo foi elaborado para oferecer informações confiáveis, atualizadas e de fácil compreensão sobre a Hidradenite Supurativa (HS). Baseado no Consenso da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), este conteúdo segue as melhores práticas de saúde pública e diretrizes de qualidade.

A Hidradenite Supurativa (HS) é muito mais do que um problema de pele passageiro. Frequentemente confundida com simples espinhas ou furúnculos, ela é uma doença inflamatória crônica que exige diagnóstico precoce e acompanhamento médico especializado. Se você sofre com “caroços” recorrentes nas axilas ou virilhas, este texto é para você.

O que é a Hidradenite Supurativa?

A Hidradenite Supurativa é uma doença inflamatória crônica, não contagiosa, que afeta o folículo piloso (onde nasce o pelo). Ela se caracteriza pelo surgimento de nódulos (caroços), abscessos e fístulas ou túneis (canais sob a pele) em áreas ricas em glândulas apócrinas, como axilas, mamas, virilhas e nádegas.

Embora o nome sugira uma infecção, a HS não é causada por falta de higiene. Trata-se de uma resposta imunológica exagerada do corpo que leva à oclusão (entupimento) do folículo, causando inflamação profunda e, em casos avançados, cicatrizes graves.

Diagnóstico Diferencial: é Hidradenite ou Furúnculo?

Uma das maiores dificuldades no tratamento da HS é o atraso no diagnóstico, que chega a levar, em média, 7 anos. Isso acontece porque a doença é constantemente confundida com furúnculos. Aprender a diferenciar é crucial:

O Furúnculo

A Hidradenite Supurativa

Resumo: Se você tem “furúnculos” que aparecem várias vezes no mesmo lugar, procure um dermatologista. É muito provável que seja Hidradenite.

Quais são as outras condições que se confundem com a Hidradenite? (diagnóstico diferencial)

É preciso distinguir a HS de condições como Crohn cutâneo, linfogranuloma venéreo e cistos.

Diagnóstico

O diagnóstico de HS é essencialmente clínico, baseado na recorrência das lesões. Considera-se um caso confirmado quando o paciente apresenta pelo menos dois episódios de nódulos, abscessos ou túneis em locais típicos dentro de um período de seis meses.

Atualmente a ultrassonografia tem sido usado para auxílio ao diagnóstico já que alterações típicas da Hidradenite são encontradas nesse exame.

A hidradenite nas axilas causa nódulos inflamados e dolorosos que surgem devido à obstrução dos folículos, dificultando movimentos simples do braço.

Com a progressão, formam-se abscessos que rompem e drenam secreção, podendo criar túneis sob a pele e odores desagradáveis na região.

O processo recorrente resulta em cicatrizes fibróticas e endurecidas, que podem limitar a amplitude de movimento e escurecer a pele da axila.
A hidradenite nas axilas causa nódulos inflamados e dolorosos que surgem devido à obstrução dos folículos, dificultando movimentos simples do braço.
Com a progressão, formam-se abscessos que rompem e drenam secreção, podendo criar túneis sob a pele e odores desagradáveis na região.
O processo recorrente resulta em cicatrizes fibróticas e endurecidas, que podem limitar a amplitude de movimento e escurecer a pele da axila.

Quais exames de imagem são solicitados para avaliar a Hidradenite?

O uso de ultrassonografia (USES) é exame muito usado para avaliação dos casos. A ressonância magnética (RNM) é crucial em casos graves, principalmente nas regiões íntimas. Em cerca de 80% das vezes, esses exames alteram o estadiamento clínico para cima, revelando túneis não detectados no toque. Isso permite um planejamento cirúrgico muito mais preciso e eficaz, delimitando a real extensão da doença.

Quando a ultrassonografia deve ser feita?


Ela está indicada sempre que desejamos obter o real estadiamento da doença. Além disso, ela é solicitada na 1ª consulta para avaliação da Hidradenite; após 2 meses de tratamento com o antibiótico; após 1,3 e 6m de tratamento com o biológico; antes e após 6 meses da cirurgia para Hidradenite.

O Dr. Rafael Moraes é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia, possui Residência Médica pelo Hospital das Clínicas da UFMG e Título de especialista em Dermatologia pela SBD, além de mais de 15 anos de experiência e 60 mil pacientes atendidos. Possui larga experiência no manejo e tratamento de pacientes com Hidradenite.

Por que a HS acontece? (Fisiopatogênese)

A ciência moderna, conforme o Consenso Brasileiro, entende que a HS surge em pessoas com predisposição genética. O processo começa com o entupimento do poro do pelo. Esse “tampão” faz com que o folículo se dilate e acabe rompendo internamente.

Quando ele rompe sob a pele, o conteúdo (queratina e bactérias naturais da pele) cai no tecido vizinho, e o corpo reage como se houvesse um corpo estranho, gerando uma inflamação intensa e dolorosa.

Epidemiologia (em quem ela ocorre?)

A hidradenite supurativa (HS) é uma doença inflamatória de distribuição universal, com dados epidemiológicos específicos tanto a nível global quanto no cenário brasileiro:

A hidradenite supurativa é mais comum em mulheres jovens, com sobrepeso e tabagistas devido à combinação de estímulos hormonais (androgênios) da idade fértil, que ativam as glândulas, e o estado inflamatório sistêmico causado pela obesidade. O excesso de peso também gera atrito mecânico e umidade nas dobras da pele, facilitando a ruptura do folículo. Paralelamente, as substâncias do cigarro provocam o entupimento dos poros (hiperqueratose) e alteram a imunidade local, funcionando como o principal gatilho para as crises.
A hidradenite supurativa é mais comum em mulheres jovens, com sobrepeso e tabagistas devido à combinação de estímulos hormonais (androgênios) da idade fértil, que ativam as glândulas, e o estado inflamatório sistêmico causado pela obesidade. O excesso de peso também gera atrito mecânico e umidade nas dobras da pele, facilitando a ruptura do folículo. Paralelamente, as substâncias do cigarro provocam o entupimento dos poros (hiperqueratose) e alteram a imunidade local, funcionando como o principal gatilho para as crises.

Fatores de Risco e Gatilhos

Existem dois fatores principais que, embora não causem a doença sozinhos, são gatilhos potentes que agravam os quadros:

A Hidradenite costuma associar-se a outras condições

A Hidradenite Supurativa (HS) não é uma condição isolada, mas faz parte de um grupo de doenças dermatológicas que compartilham o mesmo mecanismo de origem: a obstrução do folículo piloso. Esse conjunto de doenças é conhecido como Tríade ou Tétrade de Oclusão Folicular.

Essa associação ocorre porque todas essas condições apresentam a mesma falha inicial — o entupimento do poro, seguido de inflamação e ruptura do folículo.

As doenças que compõem esse grupo são:

  1. Hidradenite Supurativa: Inflamação crônica em áreas de dobras (axilas e virilhas).
  2. Acne Conglobata: Uma forma grave de acne com nódulos e abscessos interligados. Neste artigo eu explico sobre os diversos graus de acne.
  3. Celulite Dissecante do Couro Cabeludo: Formação de abscessos e túneis dolorosos no couro cabeludo que levam à queda definitiva de cabelo (alopecia cicatricial).
  4. Cisto Pilonidal: Inflamação e infecção crônica na região do sulco interglúteo (acima do cóccix).

Por que isso é importante?

Quando um paciente apresenta HS, o médico deve investigar a presença dessas outras condições. A ocorrência simultânea dessas doenças confirma que o paciente possui uma forte predisposição genética à oclusão folicular exacerbada.

Quais outras condições podem associar-se à Hidradenite?

A HS pode estar associada a doenças inflamatórias intestinais e apresentar fenômenos de patergia ou pioderma gangrenoso concomitante, exigindo uma visão sistêmica do paciente. O médico deve sempre questionar o paciente sobre queixas articulares e sintomas intestinais, especialmente em formas perianais da doença.

A hidradenite pode estar vinculada a outras condições genéticas e inflamatórias mais raras, além da oclusão folicular. Entre elas destacam-se o câncer de pele não melanoma, a Síndrome KID, a Doença de Dowling-Degos, anemias crônicas e a Doença de Behçet, reforçando a necessidade de um acompanhamento dermatológico rigoroso e contínuo.

Classificação da Gravidade (IHS4)

De acordo com o Consenso da Sociedade Brasileira de Dermatologia, a IHS4 (International Hidradenitis Suppurativa Severity Score System) é uma ferramenta de pontuação dinâmica e validada, desenvolvida para avaliar a gravidade da Hidradenite Supurativa de forma mais precisa do que a classificação de Hurley (que é estática e foca em danos cicatriciais).

A classificação funciona através de um sistema de pontos baseado na contagem das lesões no momento do exame físico. O cálculo é feito da seguinte forma:

Após a soma total dos pontos, a gravidade é classificada em três níveis:

  1. HS Leve: Até 3 pontos.
  2. HS Moderada: De 4 a 10 pontos.
  3. HS Grave: 11 pontos ou mais.

A grande vantagem da IHS4 é que ela permite ao dermatologista monitorar a resposta ao tratamento de forma objetiva: se o número de nódulos ou abscessos diminui, a pontuação cai, indicando que a terapia está a funcionar, algo que a escala de Hurley não consegue demonstrar com tanta clareza.

Classificação da Gravidade (Estágios de Hurley)

Para definir o tratamento, os dermatologistas também utilizam a escala de Hurley:

nódulo da hidradenite supurativa costuma se manifestar como um caroço inflamado, profundo e doloroso, que surge principalmente em áreas de atrito como axilas e virilhas.

Com o tempo, ele pode evoluir para a formação de abscessos que drenam pus ou se conectar a outros nódulos através de túneis sob a pele (fístulas).

Diferente de uma espinha comum, ele é recorrente e persistente, deixando cicatrizes espessas ou manchas escuras após a cicatrização.
nódulo da hidradenite supurativa costuma se manifestar como um caroço inflamado, profundo e doloroso, que surge principalmente em áreas de atrito como axilas e virilhas.
Com o tempo, ele pode evoluir para a formação de abscessos que drenam pus ou se conectar a outros nódulos através de túneis sob a pele (fístulas).
Diferente de uma espinha comum, ele é recorrente e persistente, deixando cicatrizes espessas ou manchas escuras após a cicatrização.

Manifestações mais raras da Hidradenite:

Embora as axilas, virilhas, região perimamária e interglútea sejam os locais mais típicos, a HS também pode atingir o couro cabeludo e a face. O padrão folicular, presente em até 15% dos casos e mais comum em mulheres, é caracterizado por comedões, nódulos e cicatrizes extensas.

Opções de Tratamento Segundo o Consenso da SBD

O tratamento é personalizado e visa controlar a dor, reduzir as lesões e prevenir cicatrizes.

Medidas Gerais

Tratamento Medicamentoso

Minhas lesões pioraram após o início do Biológico! o que fazer?

Ao iniciar o tratamento com medicamentos biológicos para hidradenite, é importante saber que pode ocorrer uma piora temporária das feridas no começo (flare ou reações paradoxais) ou, mais raramente, o surgimento de outras inflamações (reações do sistema imune).

Por segurança, se você estiver com muitas lesões ou infecções ativas neste momento, o médico poderá receitar antibióticos antes de começar as injeções do biológico e mantê-lo por um tempo indeterminado durante o tratamento. O objetivo de iniciar o antibiótico antes do biológico é “acalmar” a doença primeiro para iniciar o tratamento principal com menos riscos.

O Dr. Rafael Moraes é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia, possui Residência Médica pelo Hospital das Clínicas da UFMG e Título de especialista em Dermatologia pela SBD, além de mais de 15 anos de experiência e 60 mil pacientes atendidos. Possui larga experiência no manejo e tratamento de pacientes com Hidradenite.

Intervenções Cirúrgicas

E quanto aos túneis da hidradenite?

Quando há presença de túneis, a estratégia cirúrgica ideal envolve a programação de uma excisão ampla. No entanto, é fundamental realizar o tratamento clínico prévio para “desinflamar” a área. Essa abordagem diminui o volume das lesões e melhora a delimitação dos tecidos, facilitando o sucesso do procedimento cirúrgico.

Quem usa o biológico pode realizar a cirurgia?

A cirurgia pode ser realizada com segurança durante o uso de imunobiológicos, sendo essa combinação frequentemente superior para evitar recidivas.

Qual é a eficácia da cirurgia? Quando ela não é realizada?

A cirurgia possui limitações em lesões muito inflamadas ou próximas a vasos e nervos importantes. Contudo, os índices de sucesso são altos quando bem indicada: a eficácia chega a 90% nas axilas e 70% na região inguinal. O objetivo é remover o tecido doente para interromper o ciclo de inflamação local.

Hidradenite Supurativa em populações especiais (grupos específicos)

Segue abaixo o manejo da Hidradenite Supurativa (HS) em sete populações especiais, onde a evidência científica é frequentemente escassa.

1. Gravidez e Amamentação

2. Pediatria

3. Histórico de Malignidade

4. Infecções (Tuberculose, Hepatite e HIV)

5. Considerações Gerais

Complicações da Hidradenite:

A Hidradenite Supurativa (HS) é uma doença que, quando não controlada adequadamente, pode evoluir para complicações que vão muito além da superfície da pele. O caráter inflamatório crônico e a formação de cicatrizes e fístulas são os principais geradores desses danos.

Abaixo, detalhamos as principais complicações associadas à doença:

  1. Infecções Secundárias e Sepse
    Embora a HS seja primariamente inflamatória, as lesões abertas e os túneis sob a pele podem sofrer colonização bacteriana. Em casos graves e sem tratamento, essa infecção local pode se espalhar, levando a quadros de celulite bacteriana, erisipela e, em situações extremas, infecção generalizada (sepse).
  2. Formação de Fístulas e Destruição Tecidual
    A ruptura repetida dos folículos cria canais debaixo da pele chamados de fístulas ou túneis. Esses canais podem se comunicar com órgãos internos, como o reto ou a bexiga, especialmente em casos de HS perianal ou glútea, exigindo cirurgias complexas para correção.
  3. Cicatrizes Hipertróficas e Contraturas
    A cicatrização constante de abscessos gera um tecido fibroso rígido. Nas axilas e virilhas, essas cicatrizes podem se tornar tão espessas que limitam os movimentos dos braços ou das pernas, causando dor funcional e reduzindo a mobilidade do paciente.
  4. Carcinoma Espinocelular (CCE)
    Uma das complicações mais graves da HS de longa duração (geralmente após 10 a 30 anos de doença ativa) é o surgimento de câncer de pele do tipo Carcinoma Espinocelular sobre as cicatrizes crônicas. Neste artigo eu explico sobre os diversos tipos de câncer de pele, inclusive o CCE.

Ocorre em cerca de 3% dos casos graves.

É mais comum em homens, tabagistas e na região glútea/perianal.

Por ser uma área de inflamação constante, o diagnóstico do câncer pode ser difícil, o que muitas vezes leva a uma detecção tardia e maior risco de metástases.

  1. Linfedema (Inchaço Crônico)
    A inflamação e as cicatrizes recorrentes podem danificar os vasos linfáticos responsáveis pela drenagem de líquidos dos membros. Isso pode resultar em um inchaço persistente e doloroso, conhecido como linfedema, comumente observado na genitália (escroto ou vulva) ou nos membros inferiores.
  2. Impacto Psicológico e Social
    Considerada por muitos especialistas como a complicação mais frequente, a HS impacta severamente a saúde mental.

Isolamento social: Devido à dor e ao odor característico da drenagem das lesões.

Depressão e Ansiedade: Taxas significativamente mais altas do que na população geral.

Prejuízo profissional: O paciente muitas vezes precisa se ausentar do trabalho por causa das crises dolorosas.

  1. Amiloidose Sistêmica e Anemia
    Em casos muito graves e crônicos, a inflamação constante de todo o organismo pode levar à amiloidose sistêmica secundária, uma condição rara onde proteínas se depositam em órgãos como os rins, comprometendo sua função. Além disso, a inflamação crônica pode inibir a produção de glóbulos vermelhos, causando anemia crônica.
  2. Complicações Articulares
    A HS está frequentemente associada a artropatias (doenças das articulações). O paciente pode apresentar dores articulares e inchaços, necessitando de acompanhamento conjunto com a reumatologia.
A hidradenite supurativa compromete o psicológico ao gerar um ciclo de dor crônica, vergonha e isolamento social, frequentemente resultando em baixa autoestima, ansiedade e depressão devido ao caráter incurável e estigmatizante das lesões.
A hidradenite supurativa compromete o psicológico ao gerar um ciclo de dor crônica, vergonha e isolamento social, frequentemente resultando em baixa autoestima, ansiedade e depressão devido ao caráter estigmatizante das lesões.

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As informações aqui descritas têm finalidade exclusivamente educativa e não substituem a consulta médica. Toda conduta, diagnóstico ou tratamento deve ser avaliado, indicado e acompanhado por um médico, considerando as características individuais de cada paciente.

Nenhuma decisão terapêutica deve ser tomada com base apenas neste conteúdo.

Conclusão

A Hidradenite Supurativa é uma condição desafiadora, mas hoje existem tratamentos eficazes que devolvem qualidade de vida. Se você apresenta caroços dolorosos recorrentes, procure um dermatologista membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

O Dr. Rafael Moraes é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia, possui Residência Médica pelo Hospital das Clínicas da UFMG e Título de especialista em Dermatologia pela SBD, além de mais de 15 anos de experiência e 60 mil pacientes atendidos. Possui larga experiência no manejo e tratamento de pacientes com Hidradenite.

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