A urticária é uma das condições de pele mais comuns, caracterizada pelo aparecimento súbito de pápulas elevadas (vergões ou “placas”) e pruriginosas (que coçam intensamente), conhecidas como urticas. Embora geralmente inofensivas e de curta duração, quando persistem ou recorrem, podem afetar drasticamente a qualidade de vida. Este guia completo visa desvendar a urticária, explorando suas formas, causas, métodos de investigação, evolução e as estratégias de tratamento mais atuais.

O que é Urticária?

A urticária é uma reação cutânea inflamatória que se manifesta com o surgimento de urticas (vergões) e, em alguns casos, angioedema (inchaço das camadas mais profundas da pele ou mucosas).

A lesão da urticária muitas vezes apresenta um halo de eritema ou vermelhidão, resultado da dilatação dos vasos sanguíneos periféricos (vasodilatação) causada pela histamina e outros mediadores.
A lesão da urticária muitas vezes apresenta um halo de eritema ou vermelhidão, resultado da dilatação dos vasos sanguíneos periféricos (vasodilatação) causada pela histamina e outros mediadores.

Urticas. É normal coçar tanto assim?

A lesão da urticária é caracterizada por:

1. Edema Central (Inchaço)

A urtica é fundamentalmente uma lesão de edema (inchaço) na derme superficial (a camada superior da pele).

2. Prurido Intenso (Coceira)

O sintoma mais característico e obrigatório da urtica é o prurido (coceira) intenso.

3. Natureza Fugaz (Efêmera)

Esta é a característica mais definidora para diferenciar a urticária de outras erupções cutâneas:

4. Resolução sem Marcas

Quando a urtica se resolve, a pele retorna completamente ao seu aspecto normal, sem deixar qualquer tipo de:

Importante: Se uma lesão for clinicamente semelhante à urtica, mas durar mais de 24 horas no mesmo local, for dolorosa (em vez de pruriginosa) ou deixar manchas residuais (púrpura ou equimose), o diagnóstico deve ser reavaliado, podendo indicar uma condição mais rara e grave chamada Urticária Vasculite.

Em Resumo

A urtica é uma lesão dérmica que apresenta as seguintes características:

CaracterísticaDescriçãoMecanismo
MorfologiaPápula ou placa elevada, com centro esbranquiçado/claro e halo avermelhado.Edema por extravasamento de plasma.
SintomaPrurido (coceira) intenso, ardência.Ativação das terminações nervosas pela histamina.
DuraçãoFugaz; desaparece em menos de 24 horas no mesmo local.Processo inflamatório reversível e de curta duração.
ResoluçãoNão deixa cicatriz nem marcas residuais.O dano vascular é mínimo, permitindo a restauração completa da pele.

Angioedema

Ocorre em cerca de 40% dos casos. É um inchaço mais profundo, geralmente não pruriginoso, mas que pode causar sensação de dor, queimação ou aperto. Afeta mais comumente lábios, pálpebras, língua, garganta e genitais. Quando atinge a laringe, pode ser uma emergência médica por risco de obstrução das vias aéreas.

A urticária gera uma lesão elevada (pápula ou placa), facilmente palpável, que se projeta acima da superfície da pele circundante.
A urticária gera uma lesão elevada (pápula ou placa), facilmente palpável, que se projeta acima da superfície da pele circundante.

Mecanismo Básico da Urticária. Por que ela acontece?

A manifestação da urticária é resultado da liberação de substâncias químicas pró-inflamatórias, sendo a histamina a principal. Essa liberação ocorre a partir de células especializadas localizadas na pele, chamadas mastócitos. Quando os mastócitos são ativados (por alérgenos, estímulos físicos ou processos internos), a histamina liberada age nos vasos sanguíneos da pele, causando vasodilatação (vermelhidão), aumento da permeabilidade vascular (formação de edema) e estimulação de nervos (coceira intensa).

2. Tipos e Classificação: Aguda e Crônica

A forma mais importante de classificar a urticária é pelo seu tempo de duração.

A. Urticária Aguda (UA)

É o tipo mais comum. Ocorre quando as urticas e/ou angioedema duram menos de 6 semanas. Na maioria das vezes, a causa é identificável e está relacionada a um gatilho específico, como uma alergia alimentar, medicamento ou infecção viral. Geralmente se resolve espontaneamente ou com tratamento de curta duração. O prognóstico é excelente.

B. Urticária Crônica (UC)

Ocorre quando as urticas e/ou angioedema persistem ou recorrem na maioria dos dias da semana por um período de 6 semanas ou mais. Acomete cerca de 0,5% a 1% da população.

Subtipos da Urticária Crônica

A UC é subdividida com base na origem da ativação:

Urticária Crônica Espontânea (UCE): Lesões aparecem sem gatilho externo específico. Pode ser autoalérgica, autoimune ou idiopática.

Urticária Crônica Induzida (UCI): Lesões desencadeadas por estímulo físico ou ambiental, como dermografismo, frio, calor, pressão tardia ou exercício.

A Urticária Colinérgica (UC) é um subtipo comum de Urticária Crônica Induzida (UCI), caracterizada pelo surgimento de lesões cutâneas (urticas) em resposta ao aumento da temperatura corporal, geralmente desencadeado por fatores como exercício físico, banhos quentes, ambientes quentes, ou estresse emocional.

É carinhosamente apelidada de "urticária do suor" ou "alergia ao calor", embora o mecanismo seja mais complexo do que uma simples alergia.
A Urticária Colinérgica (UC) é um subtipo comum de Urticária Crônica Induzida (UCI), caracterizada pelo surgimento de lesões cutâneas (urticas) em resposta ao aumento da temperatura corporal, geralmente desencadeado por fatores como exercício físico, banhos quentes, ambientes quentes, ou estresse emocional.
É carinhosamente apelidada de “urticária do suor” ou “alergia ao calor”, embora o mecanismo seja mais complexo do que uma simples alergia.
O Dr. Rafael Moraes é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia, possui Residência Médica pelo Hospital das Clínicas da UFMG e Título de especialista em Dermatologia pela SBD, além de mais de 15 anos de experiência e 60 mil pacientes atendidos. Possui larga experiência no manejo e tratamento de pacientes com urticária.

3. Urticária Crônica Espontânea (UCE): Autoalérgica e Autoimune

Subtipo 1: Autoalérgico

É um subtipo de urticária crônica em que o próprio organismo produz IgE contra proteínas do próprio corpo. Essas IgEs se ligam aos mastócitos e, ao reconhecerem esses autoantígenos, provocam liberação de histamina. Na prática, funciona como uma “alergia contra si mesmo”. Costuma cursar com urticária persistente, às vezes mais difícil de controlar, mas sem um processo autoimune clássico mediado por autoanticorpos IgG.

Subtipo 2: Autoimune

Nesse tipo, o mecanismo é diferente: o organismo produz autoanticorpos (geralmente IgG) contra estruturas envolvidas na ativação do mastócito, principalmente o receptor de IgE (FcεRI) ou a própria IgE. Esses autoanticorpos ativam diretamente os mastócitos e basófilos, levando à liberação de histamina. Está mais associada a outras doenças autoimunes, como tireoidite autoimune, e tende a ser mais intensa e prolongada.

Subtipo 3: Idiopática

Quando nenhuma causa é encontrada, a UCE é classificada como idiopática. Este grupo tem diminuído devido aos avanços diagnósticos.

4. Investigação Diagnóstica: Encontrando a Causa

A. Urticária Aguda

A investigação é focada em identificar gatilhos. A história clínica é fundamental: medicamentos recentes (anti inflamatórios não esteroidais, antibióticos), infecções, alimentos devem ser considerados. Testes alérgicos podem ser utilizados quando há forte suspeita de alergia específica, como testes cutâneos de puntura (Prick Test) e IgE específica.

O que pode desencadear a Urticária Aguda (com menos de 6 semanas)?

Gatilhos Alimentares e Aditivos

Alguns alimentos são conhecidos por liberar histamina ou causar reações em pessoas sensíveis. Entre os principais estão:

Medicamentos

Muitas vezes a causa não está no prato, mas na farmácia. Medicamentos comuns, como aspirina e anti-inflamatórios, são gatilhos frequentes. Até mesmo vitaminas com corantes ou contrastes usados em exames de imagem podem desencadear as lesões.

B. Urticária Crônica (UCE e UCI)

A investigação é mais profunda. Os exames de triagem incluem hemograma completo, VHS, PCR, função tireoidiana e autoanticorpos (anti-TPO, anti-tireoglobulina), exames para H. pylori e parasitários, além de imagem em caso de suspeita de foco infeccioso.

Testes Específicos para Subtipos

Testes de estímulo ajudam a confirmar UCI: dermografismo com fricção da pele, urticária ao frio com aplicação de gelo e urticária de pressão com peso em coxa. Para UCE autoimune, pode ser realizado o Teste do Soro Autólogo, embora em desuso. Biópsia é reservada para casos atípicos para descartar urticária vasculite.

5. Evolução e Prognóstico: quando ela vai acabar?

Urticária Aguda

Prognóstico excelente, com resolução em dias ou semanas.

A urticária crônica tem cura?

Em muitos pacientes, sim.
A urticária crônica não costuma ser uma doença permanente. Ela é considerada crônica apenas porque dura mais de 6 semanas, mas isso não significa que será para sempre.

Estudos mostram que:

Ou seja, o curso mais comum é de desaparecimento gradual, mesmo em pessoas que tiveram quadros intensos.

Fatores de mau prognóstico incluem presença de angioedema, forma autoimune e longo tempo antes do tratamento adequado. O impacto na qualidade de vida é significativo.

6. Protocolos de Tratamento Mais Usados: quais são os melhores tratamentos?

Protocolo Internacional (EAACI/GA²LEN/EDF/WAO)

Nível 1: Antihistamínicos de Segunda Geração

São a primeira linha para todas as formas de urticária. Trinta porcento dos pacientes com urticária crônica respondem a uma dose de anti histamínico por dia e 55% respondem a 4 doses de anti histamínico por dia. Exemplos: cetirizina, loratadina, fexofenadina, desloratadina e bilastina. Na urticária aguda, usa-se a dose padrão.

Nível 2: Aumento da Dose

Em casos de urticária crônica, se a dose padrão não controlar os sintomas após 2 a 4 semanas, aumenta-se até 4 vezes a dose original. Essa estratégia é segura e eficaz.

Nível 3: Imunobiológico

. Quarenta e cinco porcento dos pacientes não respondem aos anti histamínicos e têm, portanto, indicação do imunobiológico.

O imunobiológico usado para urticária é um anticorpo monoclonal que se liga à IgE livre, impedindo sua ação nos mastócitos. Administrado por via subcutânea a cada 4 semanas. É altamente eficaz para UCE, principalmente para o subtipo autoalérgico, com um controle total do quadro em torno de 84% dos pacientes após 6 meses de tratamento, associando o tratamento com antihistamínicos.

Há outras opções de imunobiológicos que se ligam às interleucinas 4 e 13, com resposta satisfatória.

Nível 4: Imunossupressores

Inclui medicamentos que diminuem um pouco a imunidade, propositalmente. De uso reservado, devido ao risco de efeitos colaterais. Indicado apenas em casos graves refratários. Alguns medicamentos atingem controle total da urticária em 77% dos pacientes após 4 semanas de tratamento, obtendo assim, uma melhora mais rápida que a dos imunobiológicos. Estão mais indicados para os pacientes com urticária crônica autoimune.

Corticosteroides Sistêmicos

Podem ser usados apenas em crises agudas e por curto período. Uso prolongado traz riscos significativos. Diretrizes recentes têm questionado a eficácia dessa estratégia.

Por que o corticóide não é a melhor opção na urticária?

1. Alívio rápido, mas passageiro
O corticóide “apaga o incêndio” na hora: diminui a coceira e as placas rapidamente.
O problema é que, ao suspender o remédio, a urticária costuma voltar igual ou pior, criando um ciclo de dependência.

2. Não atua na causa da urticária
Na maioria dos casos, a urticária é causada pela liberação de histamina pelos mastócitos.
Quem controla isso de forma adequada são os anti-histamínicos, usados de maneira contínua e ajustada — não o corticóide.

3. Efeito rebote
Após o uso repetido, o organismo pode reagir com reaparecimento mais intenso das lesões, fazendo a pessoa achar que “só o corticóide funciona”.

4. Risco aumenta com o uso repetido
Mesmo em doses consideradas “baixas”, o uso frequente transforma um remédio de emergência em um problema crônico.


Principais efeitos colaterais do uso repetido de corticóides sistêmicos


Então, quando o corticóide pode ser usado?

O corticóide sistêmico não é tratamento de rotina da urticária, mas pode ser usado pontualmente, por curto período, em crises muito intensas — sempre como exceção, não como regra.

👉 Urticária bem tratada não precisa de corticóide repetido.
O controle adequado é feito com anti-histamínicos ajustados corretamente e, em alguns casos, tratamentos específicos para urticária crônica.

Manejo do Angioedema

Casos leves a moderados respondem a altas doses de antihistamínicos e, ocasionalmente, corticoides curtos. Angioedema grave, com risco de via aérea, requer atendimento emergencial com adrenalina intramuscular, antihistamínicos EV e corticosteroides.

Conclusão

A urticária é tratável e controlável. Quem sofre de urticas frequentes ou angioedema deve procurar um especialista para investigação completa e definição de um protocolo de tratamento que permita controle total dos sintomas e uma vida sem coceira.

O Dr. Rafael Moraes é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia, possui Residência Médica pelo Hospital das Clínicas da UFMG e Título de especialista em Dermatologia pela SBD, além de mais de 15 anos de experiência e 60 mil pacientes atendidos. Possui larga experiência no manejo e tratamento de pacientes com urticária.

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